ex-pajé

Foto: Divulgação

 

Uma das primeiras cenas do grande documentário Ex-pajé, de Luiz Bolognesi, que entra em cartaz nos cinemas dia 26 de abril, mostra o personagem que dá título ao filme, Perpera, ex-pajé da etnia Paiter Suruí, recebendo uma encomenda postal: a fotocópia em dois volumes de um trabalho acadêmico feito por um antropólogo francês a partir de entrevistas com o próprio Perpera. O texto está em francês, ele não pode lê-lo.

Somada à epígrafe de abertura (a definição de etnocídio empreendida por Pierre Clastres), a imagens dos Suruí em 1969, registradas por Jorge Bodanzky (vestígios de uma altivez perdida) e ao título Ex-pajé, a cena parece sugerir certa neutralização da força indígena, reduzida, no melhor dos casos, a objeto de estudo dos brancos.

Tal impressão recebe reforço das imagens do cotidiano de Perpera. Alijado da condição de pajé, ele trabalha agora como zelador de uma igreja evangélica. Conversando com um jovem Suruí sobre sua comunicação com os espíritos da floresta, ele atesta sua posição à margem: estigmatizado pelos evangélicos e abandonado pelos espíritos de quem outrora foi porta-voz. Na verdade, mais que abandonado, castigado, já que eles o procuram à noite para surrá-lo, razão pela qual só consegue dormir com a luz acesa (em outra cena, vemos Perpera agarrado a uma lanterna, pedindo ajuda para reparar a instalação elétrica de seu casebre).

Um pontos mais interessantes do filme prende-se justamente ao estatuto ambíguo do protagonista Perpera, que, mal integrado ao mundo branco, cristão e capitalista – tem pouca intimidade com dinheiro, se atrapalha com o valor das cédulas em uma casa lotérica; vagueia perdido entre as prateleiras do supermercado e veste mal até mesmo a roupa que é obrigado a usar como funcionário da igreja: sapatos, calça e camisa social, de manga comprida, cujos punhos jamais abotoa –, tampouco se desvincula do seu mundo de origem, povoado de espíritos que, desrespeitados, perturbam seu sono, roubam-lhe a paz.

Perpera vive assim entre dois mundos, como os demais Suruí, que, embora conservando certas práticas tradicionais (os homens caçam; as mulheres plantam, cozinham, fazem trabalhos manuais), guiam motocicletas, denunciam nas redes sociais o roubo de madeira em áreas protegidas, recebem medicação de missionários estrangeiros, deixam-se evangelizar e disputam a atenção das crianças hipnotizadas pela tela dos celulares.

No entanto, o pulo do gato do documentário de Bolognesi consiste em abalar o equilíbrio instável entre esses dois mundos pela narrativa de uma situação de crise que restitui o antigo pajé, ainda que de modo relativo e provisório, a um lugar de poder.

Tal crise é deflagrada por um acidente envolvendo uma das mulheres mais velhas do clã, que, durante a colheita da mandioca, é picada por uma cobra venenosa. O acidente é augurado pela agitação dos pássaros da floresta e interpretado como uma vingança realizada a mando dos inimigos da tribo. A avó picada é então transferida para a enfermaria de um pequeno hospital em uma cidade próxima, onde permanece entre a vida e a morte (em parte, por negligência dos médicos, que retiram o torniquete do membro atingido, permitindo que o veneno se espalhe).

Nessa circunstância, os familiares da vítima recorrem à sabedoria do ex-pajé. Ele então lhes prescreve uma série de medidas, que vão da restrição a determinados alimentos na dieta dos familiares até a confecção de uma flauta de cura. Tais medidas são seguidas à risca e a avó acaba por se salvar, retornando à aldeia.

Tal episódio, que provavelmente reproduz ficcionalmente uma história acontecida noutros tempos, flagra de modo genial a potência mítica dos Suruí, a força de sua cosmovisão, a qual, convocada em um momento decisivo, mostra sua eficácia. No entanto, o êxito do pajé em uma situação pontual de crise, embora contenha um grão de esperança, não dá margem para mistificação ou consolo: ele não é capaz de deter o desmatamento, a evangelização nem o etnocídio. À cena esplêndida em que uma criança indígena assiste com grande interesse à confecção da flauta de cura contrapõe-se o final, em que assistimos o culto na igreja evangélica, com a presença de Perpera, trajando a horrível camisa, que mais o desfigura que o veste.

Ao lado de outros documentários recentes sobre a luta dos povos originários do Brasil por terra e direitos (como Martírio, de Vincent Carelli, e Índio Cidadão, de Rodrigo Arajeju), Ex-Pajé oferece um testemunho lúcido e contraditório do drama da aculturação. O filme estreou em São Paulo no último dia 19, no festival É tudo verdade, e entra em circuito comercial no próximo dia 26. Uma entrevista com o diretor Luiz Bolognesi pode ser lida aqui: https://www.brasildefato.com.br/2018/04/19/temer-nao-esta-assinando-nenhuma-demarcacao-indigena-denuncia-documentarista/