ecocriticas estados de natureza

 

 

Nos dias 14 e 15 de agosto, ocorrerá na Universidade de Brasília (UnB) a II Jornada de Crítica Literária: Ecocríticas: Estados de Natureza, no Auditório do Instituto de Letras (IL), subsolo do ICC Sul.  O evento é uma iniciativa do Grupo de Estudos em Literatura Brasileira Contemporânea, com coordenação do professor Pedro Mandagará, da UnB.

Perguntamos ao professor sobre o evento, que terá Graça Graúna e Álvaro Tukano na abertura.

 

Índio é Nós: Qual é a importância da voz indígena para uma ecocrítica?

Pedro Mandagará: A ecocrítica é um campo de estudos em crescimento que tem se preocupado com a relação entre o que chamamos de ambiente ou natureza e a literatura, seja através da representação, seja através da criação de novos instrumentos conceituais para a leitura literária. A importância da voz indígena para a ecocrítica se dá, primeiramente, por uma postura política comum, de preservar ou proteger territórios. Demarcação já!, o grande lema da luta indígena, é também um lema de qualquer luta ecológica, incluindo a luta que se trava no campo da crítica literária. Essas confluências entre a luta indígena e a ecologia são apontadas por diversas intelectuais indígenas, como por exemplo Kaká Werá no seu excelente (e recentíssimo) volume da Coleção Tembetá, da Azougue Editorial.

Além disso, a literatura indígena, tanto oral quanto escrita, costuma trazer temas e conceitos de interesse para a ecocrítica, como a indefinição das categorias animal e humano ou as diferentes ontologias que ressaltam o papel do não-humano. O conceito ianomami de Urihi A, ou terra floresta (conforme exposto em A queda do céu, de Kopenawa e Albert, além de outras obras) pode servir como exemplo do rico deslocamento epistêmico que o pensamento indígena traz às humanidades. Ao pensarmos o mundo como floresta e o desmatamento como desmundamento, como redução violenta dos limites do mundo, talvez possamos ter a dimensão ou obter a capacidade de representar a catástrofe que estamos criando.

IEN: Qual é o papel da ecocrítica para a literatura contemporânea?

PM: A ecocrítica é uma das possibilidades de leitura política da obra literária, ao lado de leituras que enfocam gênero, classe, raça ou questões de nacionalidade e etnicidade. Do feminismo ao caldo de possibilidades de leitura equivocamente chamado de Estudos Culturais, estas diversas tendências críticas enfocaram sentidos políticos nas obras literárias, tendo como pano de fundo uma visão da obra literária como jogo de ideologias ou interpretações. A ecocrítica tem como potencial trazer à tona o material, as coisas e os seres não só como representação mas no que têm de respirável, de tocável, de poluível, de catastrófico e mortal. Apesar de não conseguir ir além da linguagem, a ecocrítica desloca a seta referencial para o lado do mundo que está sofrendo, um mundo que não é apenas construção mas que está lá (e cá).

Acredito que estas preocupações são essenciais para a crítica literária contemporânea, mas também acredito que podem ser interessantes para a criação contemporânea. Eu sou um leitor do contemporâneo e sinto (mas não sou só eu que sinto) um certo cansaço de ler, de novo, aventuras autorreferenciais de protagonistas escritores (ou jornalistas, ou publicitários, mas quase sempre homens e quase sempre brancos, como mostrou Regina Dalcastagnè). Para mim, os nomes mais interessantes da literatura atual são os que voltaram a pensar no mundo e pensar nas coisas, pensar o lá-fora além da escrita.

 

Vejam a programação do evento na página do facebook.