nucleo xapono 2017

 

O projeto Núcleo Audiovisual Xapono 2017 decorre de uma demanda das comunidades Yanomami do Marauiá (AM), por meio da Kurikama e da Escola Xapomi, para a realização continuada de oficinas de produção, exibição e discussão audiovisual, iniciadas em 2016.

Anne Ballester Soares, da Associação Rios Profundos e fundadora da Escola Xapomi em Santa Isabel do Rio Negro, o artista Amilcar Packer e o cineasta Rodrigo Arajeju responderam às perguntas que fizemos sobre o projeto.

A campanha vai até dia 22 de julho. Apoiem-no aqui: https://www.catarse.me/Xapono

 

Como vocês veem a importância do Núcleo Audiovisual Xapono para o povo Yanomami?

O Núcleo Audiovisual Xapono vem estabelecendo um centro de capacitação, produção, apresentação, discussão e difusão em audiovisual para as comunidades Yanomami do Rio Marauiá. O processo se iniciou por meio de parceria entre a Associação Yanomami Kurikama, Fábrica de Cinema, Rios Profundos e outros agentes.

A ideia central é contribuir para a construção de processos de autonomia, particularmente no que toca a produção e difusão das imagens e do imaginário dos Yanomami, por meio da divulgação controlada de sua cultura e pela constituição de alianças para suas lutas políticas, para articulação, mobilização e/ou denúncia.

Nesse sentido, a iniciativa é fundamental pois permitirá aos Yanomami confrontarem a produção externa de suas imagens, a exo-determinação que estrutura sua visibilidade para o Brasil e o mundo dito ocidental em geral, desde os primeiros contatos, esta que, via de regra, além de ser de qualidade duvidosa, é divulgada de forma maciça e estereotipada muitas vezes sem o consentimento daquelas pessoas que foram registradas.

Acreditamos que por meio do uso dessas ferramentas, as comunidades Yanomami, e mais especificamente as comunidades em proximidade ao Rio Marauiá poderão se apropriar da linguagem audiovisual para dar visão e interpretação aos seus mundos, lutas e inquietações.

 

Qual a novidade desse Núcleo no contexto da produção audiovisual indígena no Brasil?

A produção audiovisual indígena é hoje extremamente rica e heterogênea, e essa pluralidade não somente atesta para a importância dessas iniciativas e processos, como também nos impede de pensar numa lógica de inovação. Ao mesmo tempo, talvez o que podemos considerar uma inovação seja buscar aproximar as comunidades Yanomami, particularmente em proximidade ao Rio Marauiá, da produção audiovisual indígena e também torná-las coautoras desses processos.

Temos a sorte de ter já algo como 40 anos de produção audiovisual indígena ou por meio da parceria real com cineastas, antropólogos e ativistas; algo extremamente potente. Os profissionais que vêm sendo mobilizados para contribuir com os processos do Núcleo Audiovisual Xapono, para ministrar as oficinas, são pessoas que estão implicadas na produção, difusão e discussão audiovisual tanto em suas dimensões políticas quanto poéticas, e cujas práticas vêm se desenvolvendo nesse tipo de contexto e experiência.
Nesse sentido, desde o início, a proposição do Núcleo foi formulada como algo a ser iniciado junto com a Associação Yanomami Kurikama e para ser apropriado por ela, gerido por Yanomami, num processo de construção de autogestão em paralelo à ideia de autonomia na produção e difusão audiovisual, em parceria com agentes, ativistas, apoiadores e associações.

 

Qual será o papel dos voluntários nesse trabalho?

Renato Batata e Rodrigo Arajeju serão os facilitadores do processo de formação, cuja proposta inicial é absorver as dúvidas dos(as) participantes da primeira oficina realizada em 2016 e avançar nos processos técnicos que permitam maior autonomia para a produção de conteúdo pelos(as) indígenas.

A oficina será baseada em noções de configuração do equipamento, captação de áudio, filmagens e edição, assim como, em reflexões sobre questões de linguagem por meio de apresentações, análises e discussões de filmes, noções de roteiro, montagem e pós-produção.

O ideal é que os facilitadores possam moldar a oficina durante o processo, a partir das percepções apresentadas pelos membros da Associação Yanomami Kurikama sobre os objetivos da utilização do audiovisual. As atividades deverão ser direcionadas de acordo com a visão das lideranças do Povo no Rio Marauiá e pela perspectiva de viabilizar estratégias de comunicação intercultural para ampliar a visibilidade de suas lutas, reivindicações e cosmovisão.