Em cinco de abril de 2014, ocorreu o lançamento de São Paulo da campanha Índio é nós, na Casa do Povo (rua Três Rios, 252, Bom Retiro). Como foi anunciado, “Índio é nós compõe-se de uma rede independente de eventos pelo Brasil apoiada por nomes representativos de nossa cultura, [...] Neste evento, abrimos ao público o manifesto pela demarcação das terras indígenas, bem como pela paralisação dos empreendimentos que estão sendo realizados à revelia dos direitos constitucionais desses povos e das convenções internacionais.”
A programação foi cumprida integralmente:

Programação:
14:00-15:00. Abertura e mesa com Artionka Capiberibe (Unifesp) e Pádua Fernandes (Índio é nós).
15:15-15:30. Fragmento XAPIRI: Companhia Oito Nova Dança e convidados.
15:30-16:00. Lançamento da revista Poesia Sempre, da Biblioteca Nacional: especial Cantos Ameríndios.
16:00-17:00. Mesa com Marcelo Zelic (Tortura Nunca Mais-SP) e David Martim (Aldeia Jaraguá).
17:00-17:15. Apresentação de Marlui Miranda.
17:15-19:00. Mesa com Manuela Carneiro da Cunha (Universidade de Chicago), Maria Rita Kehl (Comissão Nacional da Verdade) e Marta Azevedo (Unicamp e ex-presidente da Funai).

O evento foi em sua maior parte filmado e pode ser visto nestes três filmes, que correspondem às três mesas.

http://www.youtube.com/watch?v=Iqfag0N17ic
http://www.youtube.com/watch?v=z-bjwrBR8RM
http://www.youtube.com/watch?v=_8xTYijhZPM

A primeira mesa começou com a apresentação da rede “Índio é nós” pelo editor e poeta Fabio Weintraub. Pádua Fernandes, o primeiro a falar, explicou que se tratava de uma iniciativa que nasceu entre não índios para dar apoio à mobilização das entidades indígenas e das organizações que já lidam com os direitos e terras desses povos. A ideia é mostrar que se trata de uma questão que interessa a toda sociedade e não está restrita aos povos indígenas e aos antropólogos.
Artionka Capiberibe, antropóloga e professora da Unifesp, falou dos bastidores das negociações do Congresso Nacional por conta dos projetos anti-indígenas no Congresso, como a PEC 215, a aprovação do Código Florestal e a ocupação do Congresso pelos índios em protesto contra a PEC 215.

O setor ruralista que está organizado em algumas frentes institucionais dentro do congresso é composto por cerca de150 parlamentares de um congresso de 513 [...] e nas votações que lhes interessam eles fazem alianças e acordos com outros setores conservadores do congresso então isso pode chegar a setenta por cento porque, como disse a vocês, aqueles que representam a minoria também são minoria. O Congresso é de fato um espelho da sociedade nesse sentido, no sentido da correlação de forças.

Estava presente o magistrado André Augusto Bezerra, Conselheiro da Associação de Juízes para a Democracia (AJD), que também se manifestou:

Nós temos infelizmente consciência de que um dos grandes obstáculos à causa indígena, aos direitos dos povos indígenas são as decisões judiciais, que o digam dezenas centenas de mandados de reintegração de posse expedidos em todo o país por juízes de direito em favor de não índios que se dizem possuidores, proprietários de terra contra índios que querem suas terras asseguradas na Constituição e em tratados internacionais.

Após as questões do público, a Cia Oito Nova de Dança apresentou o Fragmento Xapiri, espetáculo com música e dança das tradições indígenas brasileiras, dirigido por Lu Favoreto e Cibele Forjaz, que não foi filmado. Em março, o espetáculo completo foi um dos eventos artísticos da campanha Índio é nós.
Na segunda mesa, o poeta e editor Sergio Cohn, organizador do dossiê de poesia ameríndia do último número da revista Poesia Sempre, da Biblioteca Nacional, fez o lançamento nacional dessa edição, explicando que sofreu pressões internas na BN, que não quis publicar os cantos indígenas, afirmando que a Funai seria contrária por causa dos direitos autorais.

Fizemos uma ampla antologia de cantos ameríndios, só que no meio do processo o presidente da Biblioteca Nacional foi trocado junto com a ministra [...] e o presidente novo virou e falou, olha, estamos com um problema esse número não pode sair porque a Funai disse que não é possível publicar os cantos ameríndios na revista. Nós temos problemas legais [...] Daí nós tivemos um grande embate, eles pediram a mudança do tema da revista [...] e o Conselho virou e disse, se acontecer isso nós vamos pedir exoneração imediata com uma carta pública.

Marcelo Zelic, do Tortura Nunca Mais-SP e coordenador do projeto Armazém Memória, explicou a questão da memória indígena no Brasil, falou do Relatório Figueiredo e dos milhares de páginas já mapeadas que documentam crimes contra os povos indígenas.

Nós temos um grupo de trabalho [na Comissão Nacional da Verdade] sem estrutura, todos os grupos de trabalho têm estrutura, o grupo de trabalho indígena não tem estrutura, nós temos uma situação em que não existe investimento no sentido de fazer busca em arquivo [...] Hoje, todo esse trabalho é feito pela sociedade civil. No Armazém Memória, nós já mapeamos seiscentas mil páginas de documentos em vários arquivos do Brasil de interesse da pesquisa indígena pertinente ao período de 1946 a 1988.

Em seguida, falou uma das lideranças Guarani de São Paulo, David Karai Popygua. Ele denunciou a situação dos índios na Grande São Paulo, pois o Ministro da Justiça tarda a assinar os processos de demarcação, que já estão prontos, e chamou para o ato que se fará no Pátio do Colégio, dia 17, para lançamento da campanha Resistência Guarani SP. Ele criticou a demora para efetivar os direitos indígenas previstos na Constituição, saúde e demarcação de terras – e contou de, quando criança, a situação de crianças indígenas morrendo era vista como normal.

Eu garanto para vocês que, para nós, indígenas, o dia 19 de abril não é festa. [...] Não é carnaval. Não é copa do mundo. É lembrança de genocídio, de morte. Na ditadura, quem mais morreu não foram os ativistas, os jovens universitários que estavam lutando pela liberdade do país. Foram os indígenas. Então essa situação muito revolta a gente. Não bastasse isso, tem pessoas que ainda querem explorar o turismo dentro da aldeia. Pegar o pouco que a gente tem e fazer trabalho dentro da aldeia como se a aldeia fosse uma fazendinha [...] As pessoas não conseguem ver a gente como povo originário e que tem uma resistência.

índio é nós lançamento karai popyguaO Movimento Parque Augusta, depois dessa mesa, fez uso da palavra e denunciou a situação dos parques urbanos em São Paulo. Nessa mesma ocasião, esse Movimento fez um pequeno vídeo com David:
http://www.youtube.com/watch?v=FYRRdSgk7h8
Antes da última mesa, Marlui Miranda, com sua voz e instrumentos indígenas, apresentou um pouco do rico repertório musical dos índios brasileiros. Em razão da instabilidade na internet, apenas o início da apresentação foi gravado.
Na última mesa, a demógrafa, professora da Unicamp e ex-presidente da Funai Marta Azevedo explicou as dificuldades que teve quando esteve no governo federal, e uma delas a escassez de informações sobre a real situação dos índios, o que se relacionava com o mito de que a Amazônia seria um “vazio demográfico”: a invisibilidade estatística desses povos seria fruto de uma política deliberada anti-indígena.

A gente precisa de informação. Como é que a gente vai implementar uma  política pública, por exemplo,  de demarcação de terra, de acesso à documentação… Não sei se vocês sabem, a população indígena de Mato Grosso do Sul tem a maior porcentagem no Brasil de população indocumentada.  Não tem documento porque os índios lá no Mato Grosso do Sul chegam lá na cidade, no cartório para fazer o registro de nascimento, os cartórios não fazem. [...] Quando eu comecei a trabalhar com demografia indígena, a questão era essa, uma invisibilidade estatística tal, proposital, política, porque a estatística é política [...], a invisibilidade era tal que a gente não tinha a menor ideia. Quando teve o primeiro massacre Yanomami, em 1991, quando os garimpeiros entraram na terra Yanomami, o pessoal falava assim, está morrendo 1% da população Yanomami, aí chega outra informação está morrendo 40%, só que ninguém sabia quanto era a população Yanomami. Então a gente não tinha muito como comprovar.

índio é nós lançamento manuela carneiro da cunhaA antropóloga Manuela Carneiro da Cunha fez um panorama das mobilizações em prol dos índios no Brasil, falou da criação da Comissão Pró-Índio em 1978, de que ela foi presidente, e falou do desenho que Henfil havia feito nessa época para a campanha, e que uma militante da época, Cybelle de Lima, resgatou para “Índio é nós”. Destacou que era a primeira vez, na história do Brasil, que se estava criando uma legislação de fato anti-indígena, e num período democrático.

O que aconteceu depois de 88 é que houve uma crescente busca pelos direitos pelos indígenas. Uma reivindicação desses direitos. E isso está provocando hoje uma coisa que nunca aconteceu, que é uma tentativa de mudar a lei. Ninguém se importava com a lei antes. Porque ninguém cumpria. Mas agora há um assalto legislativo aos direitos indígenas.  A bancada ruralista está tão forte, aliada, aliás, à bancada evangélica, que ela está atropelando e tentando, de vários modos, modos mais grosseiros, modos mais sutis também, cancelar a Constituição no que diz respeito aos direitos indígenas. O que me parece geral e grave é que pela primeira vez a gente tenha leis anti-indígenas [...] Isso é que é espantoso num país que conseguiu destruir sua população indígena. Durante muito tempo, e tem gente que ainda pensa assim, se achava que o desaparecimento dos índios era uma lei da natureza, ou uma lei do positivismo social [...] Pessoas como o cientista político Hélio Jaguaribe, por exemplo, acreditavam nisso. Quem olha um pouquinho pra a história sabe que isso não é verdade. [...] É uma história política de destruição dos índios.

índio é nós henfilA professora Cybelle de Lima, que havia participado da mobilização de 1978 contra o projeto governamental de “emancipação” indígena, que tinha como finalidade espoliar as terras dos índios, trouxe nesse dia, para a campanha Índio é nós, o desenho que Henfil havia feito para 1978: “Ame-o ou emancipe-o”, parodiando a propaganda governista. Manuela Carneiro da Cunha aproveitou e fez referência, na sua fala, a esse desenho. Infelizmente, nos dois momentos em que a obra foi exibida para o público,uma pelo mediador da mesa e, depois, pela antropóloga, a internet caiu. Ele, pode, porém, ser visto ao lado.
A psicóloga, jornalista e escritora Maria Rita Kehl contou da sua experiência que está vivendo na Comissão Nacional da Verdade e se referiu a casos que ouviu pelo Brasil, e como a questão indígena surgiu para ela como uma nota de rodapé às violações de direitos humanos no campo, nota que se revelou de proporções insuspeitadas, pois a ditadura atingiu diversos povos indígenas em todas as regiões do Brasil.

Quando a Comissão se formou, eu escolhi o capítulo das graves violações de direitos humanos contra os camponeses, porque eu tenho uma ligação muito forte com o MST [...] Quando eu escolhi o capítulo dos camponeses, os índios vieram juntos, como se fosse uma nota de rodapé, como se “ah, vamos pegar essa coisa desimportante, camponeses e índios, e dar tudo para uma pessoa só”. E muitas pessoas vieram me perguntar no começo da Comissão [...] mas por que os camponeses? [...] Lembravam das Ligas Camponesas  e não das dezenas de movimentos e [...] das centenas de mortos . E aí ficaram ainda mais espantadas: mas os índios? Os índios protestaram contra a ditadura? Os índios ameaçaram os governos militares? Ora, os governos militares não violaram gravemente direitos humanos só contra quem se levantou contra eles [...] não é que os índios se levantaram contra a ditadura. Aos poucos, alguns povos indígenas reagiram localmente contra projetos dos militares que invadiram suas terras. Os Waimiri-Atroari foram um caso, foi a primeira terra que visitei, o primeiro caso que conheci, isolados do Amazonas até Roraima [...]

índio é nós lançamento zé celso3Como psicanalista, ela afirmou que a ideia de “índio é nós” deveria superar a solidariedade com o índio para chegar a uma identificação; os índios estão perdendo seu tekoha, seu lugar onde podem realizar suas práticas, mas isso também está acontecendo nas cidades com os não índios. Nesse momento, ela avistou na plateia José Celso Martinez Corrêa, o Zé Celso do Teatro Oficina, que fez uso da palavra e falou de sua identificação com os povos indígenas e com seu próprio tekoha, o Teatro Oficina, que continua em disputa com o grupo Silvio Santos.
Nesse mês de abril, por sinal, o Teatro Oficina foi citado em razão de outra ação de reintegração de posse desse grupo. Os Guarani da Terra Indígena Jaraguá, representados no evento por David Karai Popygua, receberam recentemente uma ação do mesmo tipo. Também nessa opressão comum, vê-se que índio é nós.

 

Compartilhe:Share on FacebookTweet about this on TwitterShare on TumblrShare on Google+Email this to someone