logo_intAbaité, Pascha (A chegada do demônio Catê)

Abá – Pesquisador e estudante de Ciências Biológicas, descendente da etnia Caigangue. Joinville-SC

 

De longe nos pareceram amigáveis e de boa fé, pareciam perdidos em meio às águas do nosso mar, talvez não fosse à toa que deus Sol os tenha trazido até nós, vinham em uma espécie de grande peixe de madeira com uma lança fincada em suas entranhas, no inicio até sentimos medo, pensávamos que eram espécies de deuses em corpos de homens, pois nunca havíamos visto alguém dominar a fúria das ondas e dos ventos como se fossem donos deles.

No outro dia chegaram à praia em peixes de madeira menores, até parecidos com nossas canoas de pesca, eram feios e não cheiravam muito bem, o que não surpreendia, pois estavam presos à uma espécie de pele de algum animal estranho, nossa curiosidade se fez evidente, porém ousamos não demonstrar medo algum.

Nossa cordialidade fez com que eles se sentissem melhor em nosso meio, mas não tão bem quanto já estávamos entre eles, nos deram de uma bebida forte para beber, e nós vos oferecemos água pura, nos deram gorros vermelhos em troca de boa comida, e nossas armas, que já não pareciam necessárias, se tornaram espelhos que refletiam vosso “mundo de influenza cristã”, nos fizeram beijar seu deus, mas não o vimos agradecer o calor que nosso deus os oferecia.

Pois foi quando o fomos amigos, que eles mostraram quem eram de verdade, no impulso de vossa ignorância nos castigaram, nos acorrentaram, abusaram de nossas mulheres, fizeram com nossos filhos o que não faríamos com qualquer animal, vosso espelho só refletia maldade e burrice, vosso gorro só cobriu o sangue que já escorria pelo rosto de tanto baterem em nossas cabeças como se achassem que nada havia nelas, “pois quem me dera, ao menos uma vez, entender como um só deus ao mesmo tempo é três”.

Levaram-nos do mais puro ouro e da mais bela esmeralda, o que nos deixaram foram seus rostos, imundos, gravados em nossos corações. Só conseguimos sentir o medo, que antes não sentimos, e o remorso de não podermos fazê-los entender a beleza da mãe Terra, e do pai Sol, que os deram abrigo, comida e calor, que só lhes deram do verdadeiro amor. Só conseguimos chorar com a coragem de quem viu sua casa cair, seu jardim desaparecer, e sua verdadeira mãe ser enfeitada com sangue inocente, de quem foi sempre sábio o suficiente para não maltratá-la e agir como filhos displicentes.

Mesmo assim, ainda podemos ter força de pedir ao nosso deus, que diga aos seus três deuses, ou a um só?- para que seja capaz de perdoá-los, mesmo sendo pura maldade a deles de deixar “esse mesmo deus que foi morto por vocês, tão triste”.